17 de Agosto de 2018

Suposta fala de Trump ofende países, é 'esnobada' por noruegueses e dá dor de cabeça a tradutores

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, negou nesta sexta-feira (12) que tenha usado palavras ofensivas ao se referir a imigrantes de países como Haiti, El Salvador e da África em uma reunião com parlamentares na Casa Branca.

A imprensa americana havia divulgado que, segundo relatos de pessoas presentes no encontro, ele teria questionado "por que todas essas pessoas de países de m... vem parar aqui?". "Por que precisamos de mais haitianos?", teria acrescentado.

Na declaração, Trump teria usado a expressão em inglês "shithole" ou, literalmente, "buraco de m". Mesmo a tradução do termo e decisão de usá-la ou não, por conter um palavrão, gerou debates entre jornalistas de diferentes países, segundo uma reportagem do "Washington Post". Outra tradução possível é mais leve, embora ainda ofensiva: um lugar sujo ou extremamente desagradável.

Os relatos afirmam que Trump sugeriu ainda que os Estados Unidos prefiram imigrantes de países como a Noruega aos procedentes dessas regiões - cujas permissões para residência nos EUA vêm sendo revogadas ou ameaçadas ultimamente.

O encontro, ocorrido nesta quinta-feira, reuniu integrantes dos partidos Democrata e Republicano e tinha como pauta um acordo bipartidário sobre políticas de proteção aos imigrantes nos EUA.

Nesta sexta-feira, o presidente se manifestou sobre o tema, como já é habitual por sua parte, no Twitter. Ele não confirmou o teor exato das declarações - afirmou apenas que "a linguagem usada no encontro foi dura, mas não foi essa".

Não fez esforços, porém, para amenizar o tom e partiu para cima dos democratas - embora tenha feito um aceno aos haitianos.

"Eu nunca disse algo depreciativo sobre haitianos além do fato de o Haiti ser, obviamente, um país muito pobre e problemático. Eu nunca disse 'os tire daqui'. (Isso foi) inventado pelos democratas. Eu tenho um relacionamento maravilhoso com os haitianos. Provavelmente devesse gravar futuras reuniões."
'Mérito'

Em suas mensagens na rede social, Trump defendeu suas ideias sobre imigração.

"Quero um sistema de imigração baseado no mérito, e pessoas que ajudarão a levar o país a um próximo patamar. Eu quero segurança para o nosso povo. Quero parar a entrada massiva de drogas no país", escreveu.

Segundo ele, os Estados Unidos devem acabar com um sistema conhecido como loteria de vistos - por meio do qual candidatos de diferentes lugares do mundo são selecionados aleatoriamente para ter a oportunidade de residir permanentemente nos EUA.

Trump também criticou a proposta que recebeu dos parlamentares sobre o Daca e acusou uma senadora de ter vazado falas confidenciais da reunião.

"A democrata Dianne Feinstein nunca deveria ter publicado falas secretas do comitê sem autorização. Foi muito desrespeitoso com os membros do comitê e, possivelmente, ilegal", escreveu ele.

Os supostos comentários levaram o presidente a ser chamado de "xenófobo e racista" por políticos e internautas.

 

Medidas anunciadas por Trump tem atraído protestos (Foto: Jewel Samad/AFP)

Reações no mundo

Rupert Colville, porta-voz de direitos humanos da ONU, classificou os supostos comentários de Trump como "chocantes", "vergonhosos" e "racistas".

A União Africana, grupo que reúne os 55 países do continente, afirmou ter ficado preocupada com a suposta fala.

"Diante da verdade histórica do grande número de africanos que chegaram aos EUA como escravos, essa declaração vai de encontro a todos os comportamentos e práticas hoje aceitos", afirmou Ebba Kalondo, porta-voz da organização, à agência de notícias AP.

 

Os comentários atribuídos à Trump também foram mal recebidos por internautas da Noruega, país que, segundo os relatos, foi apresentado por ele como origem desejada de imigrantes.

"Eu moro na Noruega e nunca me mudaria para o Estados Unidos. Nós temos sistema de saúde, educação superior gratuita, cinco semanas de férias e oito horas de trabalho diárias. Não, Trump, obrigado", afirmou uma usuária do Twitter, em uma mensagem compartilhada centenas de vezes.

Alex Nowrasteh, analista de políticas de imigração que atua em Washington, publicou dados apontando que, entre 1850 e 1913, o imigrantes noruegueses se mostraram entre os mais malsucedidos nos EUA, se analisadas as rendas obtidas no país pelas primeiras e segundas gerações de europeus que migraram para os EUA.

"Os imigrantes noruegueses se deram tão mal nos Estados Unidos que 70% deles voltaram e ficaram na Noruega", acrescentou.

"Eu não tenho nada contra noruegueses ou a Noruega, mas isso mostra que os "imigrantes perdedores" vindos dos "países m". de ontem tendem a se tornar excelentes, ricos americanos depois de algumas gerações, enquanto seus países melhoram substancialmente."

 

Acordo sugerido

Na reunião de onde a suposta fala teria saído, parlamentares propuseram a Trump restabelecer as permissões para o chamado "Status de Proteção Temporária" para determinados países, permitindo aos seus habitantes se refugiarem nos Estados Unidos em situações em que seus locais de origem estejam temporariamente inseguros para eles.


Em troca disso, esses países teriam de oferecer US$ 1,5 bilhão (R$ 4,83 bilhões) para o muro que Trump quer construir na fronteira entre os Estados Unidos e o México. O encontro tinha a presença de parlamentares dos partidos Republicano e Democrata, envolvidos em na negociação de um acordo bipartidário sobre imigração.

Eles teriam sido surpreendidos, no entanto, pela reação de Trump.

Os polêmicos comentários atribuídos ao presidente teriam ocorrido logo após o senador democrata Richard Durbin falar sobre a questão da permissão de residência temporária nos Estados Unidos, garantida a cidadãos de países atingidos por desastres naturais, guerras ou epidemias, de acordo com a mídia americana.

No Twitter, Trump disse que o acordo oferecido a ele era "um grande passo para trás, que não financiaria os planos de construção do muro apropriadamente e forçaria os Estados Unidos a receberem um grande número de pessoas de países de alta criminalidade, que estão indo mal".

Como a Casa Branca reagiu?

A Casa Branca não negou nem confirmou os comentários, mas divulgou um comunicado sobre o assunto, no qual defende a posição de Trump sobre a imigração.

No texto, Raj Shah, porta-voz da Casa Branca, afirma que "certos políticos de Washington escolheram lutar por países estrangeiros, mas o presidente Trump sempre irá lutar pelo povo americano".

E complementa: "Assim como outros países que têm imigração baseada no mérito, o presidente Trump está lutando por soluções permanentes que tornariam nosso país mais forte ao acolher aqueles que podem contribuir com a nossa sociedade, com o nosso crescimento econômico e se integrar à nossa grande nação".

Shah também declarou que Trump "sempre irá rejeitar medidas temporárias, fracas, paliativas e perigosas que ameacem a vida dos trabalhadores americanos e prejudiquem imigrantes que buscam uma vida melhor nos Estados Unidos por meio dos caminhos legais".

'Discriminatórios e elitistas'


Mia Love, deputada de Utah pelo mesmo partido de Trump, o Republicano, e única americana-haitiana no Congresso, exigiu que Trump se desculpe pelos comentários "indelicados, discriminatórios e elitistas".

Elijah Cummings, parlamentar Democrata de Maryland, também reprovou a postura do presidente. Ele escreveu no Twitter: "Eu condeno essa declaração imperdoável e essa humilhação vinda da Presidência".

Outro parlamentar democrata negro, Cedric Richmond, disse que os comentários de Trump "são provas adicionais de que sua agenda para 'fazer a América grande de novo' significa realmente uma agenda para fazer a América branca novamente", em referência ao fato de muitos dos países citados na reunião terem grandes populações negras.

A Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) disse que o presidente está "caindo cada vez mais fundo no buraco do racismo e da xenofobia".

O tema gerou reações também nas redes sociais. No Twitter, uma usuária compartilhou uma imagem que reproduz parte das declarações atribuídas a Trump pedindo o compartilhamento de "quem está cansado de ter um presidente intolerante".

Junto à imagem, ela escreveu: "Não podemos permitir que a intolerância e o racismo de @realDonaldTrump's se torne normal. Nós somos um país melhor que #Trump".

Outro usuário postou: "Devemos expressar nossas profundas desculpas às pessoas do #Haiti pelo ódio e racismo do presidente e de seus seguidores."

Restrições

O acordo entre democratas e republicanos é negociado em um momento em que imigrantes que já estão ou pretendem entrar no país enfrentam restrições ou veem a permanência no país ameaçada.

Esta semana, por exemplo, o governo Trump anunciou que estava revogando o status de proteção temporária para mais de 200 mil pessoas de El Salvador.

A decisão dá a salvadorenhos vivem nos Estados Unidos há quase três décadas um prazo até o próximo ano para deixar o país, buscar residência legal ou enfrentar uma possível deportação.

Esses imigrantes haviam garantido residência provisória após o terremoto que devastou o país da América Central em 1991.

Segundo o Departamento de Estado americano, muitos dos danos que o terremoto causou na infraestrutura do país já foram reparados.

O status de proteção já havia sido revogado para pessoas do Haiti e da Nicarágua.

Centenas de milhares de imigrantes enfrentam o risco de possível deportação dos Estados Unidos.

Entre outras medidas nessa área, o governo Trump vem tentando limitar o número de familiares de imigrantes que podem entrar nos EUA e acabar com o status de proteção de milhares de imigrantes que já estão no país.

 

 

G1

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