17 de Dezembro de 2017

Juiz adia julgamento de pagodeiro acusado de matar ex-mulher

O juiz Paulo Eduardo de Almeida Chaves Marsiglia adiou para 11 de setembro o júri do pagodeiro Evandro Gomes Correia Filho, acusado de provocar a morte da ex-mulher e de tentar matar o filho, em 2008.

O julgamento deveria começar na tarde desta quarta-feira (8) no Fórum de Guarulhos, na Grande São Paulo.

O adiamento ocorreu por causa de provas adicionadas ao processo recentemente, como um parecer psiquiátrico particular apresentado pela defesa que indicaria que a ex-mulher do músico, Andréia Cristina Bezerra Nóbrega, tinha tendências suicidas. Também foram juntados 15 vídeos com quatro horas de duração e mensagens de torpedos de celular recebidas pelo réu. O novo prazo foi concedido para permitir a análise mais detalhada dos novos documentos.

O músico está há quase cinco anos foragido da Justiça e tem sua foto estampada na lista dos 21 criminosos mais procurados da Polícia Civil de São Paulo. Em entrevista, Evandro, de 39 anos, negou ter provocado a morte da ex-mulher e disse que não tentou tirar a vida do seu filho, então com 6 anos, em 18 de novembro de 2008.

As vítimas pularam do terceiro andar do apartamento onde moravam porque o músico, segundo a acusação, as teria ameaçado com uma faca, chegando inclusive a cortar a mangueira do gás de cozinha com o intuito de explodir o imóvel. Ele teve a prisão preventiva decretada em 15 de dezembro do mesmo ano. Desde então, foge da polícia.

 

Ele havia prometido se apresentar ao júri, mas não esteve no fórum nesta quarta-feira. O advogado do réu, Ademar Gomes, disse que seu cliente iria se apresentar somente no interrogatório dele. Para Ademar, o adiamento traz prejuízos ao seu cliente porque ele não terá chance de provar sua inocência e deixar de ser um foragido. 

O promotor do caso, Rodrigo Merli, criticou a defesa do pagodeiro."Era o que a defesa queria, isso ficou evidente diante da manobra procrastinatória que eles [membros da defesa] providenciaram", disse. "Isso aqui virou um circo", afirmou o promotor. “Só se for muito ignorante para ter a prova da inocência nas mãos e ficar quatro anos e meio foragido.”

Segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo, o filho do músico deverá ser ouvido como uma das quatro testemunhas da acusação quando ocorrer o julgamento. A defesa também arrolou cinco testemunhas.

Novas provas
O advogado de defesa do réu disse ter juntado ao processo 15 vídeos, com quatro horas de duração, e mensagens de torpedos que seriam da ex para dois telefones celulares do músico.

“As provas foram juntadas dentro do prazo”, disse Ademar Gomes, em resposta a afirmação do promotor Rodrigo Merli de que os documentos foram levados para conhecimento do Ministério Público fora do prazo legal de três dias antes do júri.

Antes do adiamento do júri, o promotor comentou sobre os documentos. “Vou pedir ao juiz [Paulo Eduardo de Almeida Chaves Marsiglia] para desconsiderar essas provas da defesa. Se o magistrado as aceitar, o júri teria de ser anulado no futuro porque os documentos foram juntados fora do tempo que determina a lei. Eu recebi os documentos na segunda-feira [6] e nem tive tempo de ler ou ver o material”, disse Rodrigo Merli.

Suicídio
Evandro, que se mantém escondido e usa disfarces para não ser identificado e detido, alega em sua defesa que Andréia se suicidou. Segundo o pagodeiro, a ex tinha ciúmes dele com sua nova mulher e queria reatar o relacionamento, mas ele recusou, dizendo que havia sido pai novamente.

Sobre seu filho, não soube explicar como o garoto caiu. “Eu tinha mandado ele para o quarto. Quando eu ouvi o barulho da queda e fui olhar pela janela, ele também estava lá embaixo. Bateu um desespero total. A cabeça girou. Fui buscar socorro”.

Quando morreu, Andréia tinha 31 anos. Ela e o filho do casal caíram da janela do imóvel onde moravam. Na queda, a ex caiu na calçada e faleceu. A criança teve fraturas, mas sobreviveu ao cair no parapeito do prédio.

Imagens de câmeras de segurança gravaram o momento em que a mulher entra com o filho no edifício. Em seguida, vem Evandro. Depois, outras cenas mostram a queda da ex e o socorro dos bombeiros à criança. Elas também registraram o instante em que o pagodeiro deixa lentamente o local, sem prestar socorro às vítimas.

“As imagens foram trocadas”, alegou Evandro, que foi apontado pela polícia como o principal suspeito pela morte da ex e pela tentativa de assassinato da criança.

Omissão de socorro
Sobre a omissão de socorro, por não ter ajudado a ex e o filho quando saiu do prédio e os viu na calçada, o pagodeiro alegou que ficou com medo de ter sido linchado pelas outras pessoas na rua. “Fui direto ao estacionamento, onde achei que havia deixado o carro. Na minha cabeça, ele [o carro] estava no estacionamento e não o encontrei. Minhas pernas ficaram sem forças. Daí, pedi ajuda ao rapaz do estacionamento e liguei para um amigo bombeiro. Mas o desespero falou mais alto no coração”, afirmou.

O artista alega que havia encontrado Andréia num shopping e foi com a ex ao apartamento para visitar o filho. Mas, segundo a acusação, era o artista que tinha ciúmes de Andréia. De acorod com o Ministério Público, o pagodeiro cortou a mangueira de gás e ameaçou a ex e o menino com uma faca quando entrou no prédio. “O enciumado era o Evandro e não a Andréia”, chegou a declarar à época o promotor Rodrigo Merli Antunes.

A reportagem não conseguiu falar com Fernando José da Costa, advogado da família de Andréia. Logo após o crime, Josilene Nóbrega, irmã de Andréia, relatou à imprensa agressões de Evandro a Andréia. Em 2007, a ex do pagodeiro chegou a registrar boletim de ocorrência denunciando ameaças do músico desde a separação do casal. Informou que o pagodeiro iria “dar uns tiros” na sua cara.

Evandro afirmou que só não havia se apresentado à Polícia Civil à época porque soube que seria preso. Também contou que só não se entregou ainda porque precisava cuidar da sua mãe, que morreu de câncer no ano passado. Disse ainda que propôs à Justiça, por meio de seu advogado, o uso de uma tornozeleira eletrônica, para continuar trabalhando. “Mas recusaram todos os pedidos”, disse.

“Vim para provar minha inocência”, disse Evandro. Essa não é a primeira vez que o pagodeiro fala com a imprensa como fugitivo da Justiça e na condição de procurado pela polícia. Em 29 de setembro de 2010, durante as eleições presidências e governamentais, ele deu entrevista coletiva disfarçado com peruca, cavanhaque postiço e óculos escuros. Naquela ocasião, o pagodeiro não podia ser preso porque a lei eleitoral impede prisões de quem não tem sentença condenatória definitiva antes de pleitos.

Agora, afirmou estar disposto a se apresentar sem disfarces. Evandro disse que se refugiou no Nordeste para não ser preso. Nesse período, contou ter sobrevivido graças às vendas de um CD com músicas evangélicas. “Gravei um CD com pagodes, mas nem sei como estão as vendas”, afirmou ele, que espera ser absolvido para retormar sua carreira musical. “Estou precisando trabalhar. Um homem parado vira lixo, não é ninguém.”

 

Antes de ser preso, Evandro havia tentado seguir trabalhando como cantor, gravou CD e se apresentou em programas de auditórios.

Testemunha
Questionado sobre a possibilidade de seu filho, atualmente com 11 anos, ser ouvido, Evandro se diz “tranquilo”. Em 2008, a pedido da polícia, o garoto desenhou o pai com uma faca na mão e ele e a mãe pulando a janela. Atualmente, o menino está sob a guarda da avó materna, em Minas Gerais.

“Desde que a mãe se suicidou, ele [o menino] está com a avó e as tias. Então, com certeza ele está sendo influenciado por elas. A Andréia sempre o usou para me ferir. Mas mesmo assim eu estou tranquilo. O meu filho é maravilhoso”, disse ele, que, caso seja inocentado, tentará obter a guarda do garoto.

Para Ademar Gomes, não há provas contra Evandro. “O que importa para o júri é o que ocorreu naquele quarto. Se crime houve, seria quando muito o de omissão de socorro. Mas cada um tem uma reação distinta diante de um ocorrido como este. É difícil se colocar na posição dele. Só quero que a acusação diga o que há contra o Evandro”, afirmou.

 

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