08 de Agosto de 2022

IRLANDÊS É ENCONTRADO PELO LINKEDIN E VAI JOGAR COPA AFRICANA POR CABO VERDE

O irlandês Roberto Lopes, 29, lembra-se de ter entrado no Linkedin em 2019 e encontrado uma mensagem de pessoa desconhecida, escrita em língua indecifrável. Não deu nenhuma atenção. Meses depois havia outro texto do mesmo remetente. Na segunda vez ele entendeu. Estava em inglês. E aí, Roberto? Pensou na minha proposta?” Aquela pergunta transformou sua vida. Foi a porta de entrada para o zagueiro do Shamrock Rovers, da liga irlandesa, atuar pela seleção de Cabo Verde.

Neste domingo (9), a equipe estreia na Copa Africana de Nações contra a Etiópia em Yaoundé, capital de Camarões, às 16h (de Brasília), com transmissão da Band. Lopes copiou o texto original e o inseriu no Google Tradutor. Tinha sido enviado em português. Dizia que a federação do país africano sabia da ascendência cabo-verdense dele e o convidava a defender a seleção. Foi escrita pelo então técnico da equipe, Janito Carvalho.

“Foi algo muito louco. Achei que a mensagem era spam [termo que determina propagandas ou ofertas indesejadas enviadas pela internet]. Esqueci o assunto. Quando descobri o que era, respondi na hora que adoraria fazer parte do elenco. A partir dali, foi tudo muito rápido. Fiquei muito feliz pela oportunidade”, diz Roberto, em inglês. Até hoje ele não domina o português. Questionado se aprendeu a língua do país de origem dos seus pais, ele se arrisca.

“Un poquito.” “Isso é espanhol”, ressalta alguém do seu lado. “Oh. Desculpe”, ele responde, em inglês. Isso não é nada. Desafio mesmo foi o seu teste de iniciação com os outros jogadores da seleção, em sua primeira convocação. Ele teve de cantar uma música em crioulo cabo-verdiano, a língua cotidiana do país. Português é a oficial. “Crioulo é bem difícil. Fiquei nervoso, mas acho que me saí bem. Os outros jogadores fizeram com que eu me sentisse muito à vontade. Estava em casa”, completa. Lopes explica ter aceitado o convite da federação por dois motivos. Ele já havia visitado Cabo Verde antes com os pais, mas defender a seleção e estar no país mais vezes representam chance de conhecer a história de seus antepassados.

Há também o motivo futebolístico. Nascido no subúrbio de Dublin, Lopes tem carreira vitoriosa no futebol irlandês. Defendeu o Bohemians e hoje está no Shamrock Rovers. São os dois times mais populares em sua terra natal. Foi campeão nacional em 2020 e 2021 e venceu a Copa da Irlanda de 2019. Para fazer parte da seleção europeia, é preciso mais. Os convocados dificilmente jogam na liga do país. Atuam na Inglaterra ou na Escócia por causa do nível do futebol.

A ironia é que a Irlanda, na década de 1980, foi a primeira federação a buscar atletas nascidos em outros países que poderiam defender a terra dos seus antepassados. O artifício usado por Roberto Lopes para jogar por Cabo Verde. “A qualidade do futebol africano é muito alta, e a Copa tem nível excelente. Para mim, está no mesmo nível das competições europeias”, elogia. “A maioria dos nossos jogadores atua na França. É um sonho disputar este torneio. Sempre assisti pela televisão.” Será a terceira participação de Cabo Verde. Em 2013, o time chegou às quartas de final e perdeu para Gana. Dois anos depois, caiu na fase de grupos.

Neste ano, além da Etiópia, que encara na estreia, está na chave com Burkina Faso e Camarões. Avançam os dois melhores. “Eu estar aqui é um orgulho enorme para a minha família. Estou representando o país da nossa origem. Meus amigos em Dublin ficaram muito interessados em saber mais, em aprender sobre Cabo Verde. É uma enorme experiência”, comemora Lopes. Ele já está de olho no futuro: a Copa do Mundo. Nas eliminatórias para o torneio deste ano, no Qatar, a equipe deixou escapar por pouco a vaga para a terceira e decisiva fase. Ficou dois pontos atrás da Nigéria. A meta agora é 2026, na competição que será sediada por Estados Unidos, Canadá e México.

“É muito difícil se classificar nas eliminatórias africanas. São cinco vagas. Mas essa última campanha nossa nas eliminatórias nos deu muita crença de que podemos conseguir da próxima vez. É possível”, acredita. Talvez ele possa até ser o representante irlandês no Mundial. Sua terra natal não está presente desde 2002. Pela situação atual do futebol nos continentes europeu e africano, pode ser mais fácil para Cabo Verde se classificardo que para a Irlanda. Eu falo bem sobre Dublin para o pessoal aqui do time, e eles são curiosos. Mas, quando digo que faz frio e chove muito, desistem de conhecer”, diverte-se Roberto Lopes.

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